O anti-ESG flopou?

Vivemos em um mundo complexo e por vezes difícil de explicar. Um bom exemplo é o momento atual da agenda ESG, especialmente nos Estados Unidos. Como bem sabemos, o acrônimo surgiu como forma de sistematizar e simplificar a comunicação sobre a conexão entre resultados de longo prazo e boas práticas ambientais, sociais e de governança, descrita pelo famoso relatório Who Cares Wins, do Banco Mundial e Pacto Global das Nações Unidas.

Trata-se, portanto, de uma agenda com viés financeiro claro, que entrega mitigação de riscos que, em um primeiro momento, seriam classificados como não financeiros — mas que podem impactar significativamente os negócios no médio ou longo prazo.

Foi exatamente por esse potencial de proteger o capital investido e reduzir riscos ESG que as práticas ESG ganharam adeptos no mercado financeiro, ao ponto de vivermos a chamada “onda ESG” nos últimos anos. O crescimento acelerado, contudo, trouxe efeitos colaterais indesejados. Como a agenda trata de questões socioambientais relevantes, como o combate às desigualdades e às mudanças climáticas, setores refratários a tais pautas politizaram o debate com o argumento de que a sustentabilidade corporativa seria uma distração — um empecilho ao “verdadeiro” objetivo dos negócios: maximizar retorno financeiro aos acionistas.

Parece haver uma contradição nesse argumento, uma vez que as práticas ESG se tornaram relevantes justamente por proteger o capital investido, ao estabelecer estratégias que conciliam crescimento econômico com gestão de externalidades e geração de valor compartilhado. Além disso, melhoram o relacionamento com stakeholders e criam ativos reputacionais e institucionais valiosos em tempos de crise.

Você pode até não concordar com a tese, mas é difícil argumentar que ela seja mais ativista do que financista. Esse é o ponto de vista, por exemplo, de Larry Fink, presidente do Conselho de Administração e diretor executivo da BlackRock, maior gestora de ativos do mundo. Fink tem repetido que seu engajamento com a sustentabilidade empresarial não vem de um ativismo social, mas sim do dever fiduciário para com seus clientes — que investem com foco em retornos sustentáveis de longo prazo. Capitalismo puro e simples.

Mesmo assim, o debate político que posicionou a agenda ESG como uma ameaça à prosperidade econômica ganhou força suficiente nos EUA para motivar a criação de alguns fundos de investimento “Anti-ESG”. Esses novos fundos afirmam que os fatores ambientais, sociais e de governança são ineficientes para avaliar investimentos — e por isso ou ignoram completamente esses critérios, ou evitam ativamente empresas que apoiam causas consideradas “de esquerda”.

Contudo, os chamados fundos anti-ESG têm encontrado dificuldade em atrair investidores e em entregar resultados consistentes. Segundo levantamento da Morningstar, os 27 fundos com essa estratégia possuem US$ 2,42 bilhões sob gestão. Em contrapartida, fundos que adotam estratégias ESG como base reúnem US$ 313,4 bilhões em ativos.

Essa diferença se explica por dois fatores principais. O primeiro está nos fundos que apenas ignoram os critérios ESG em suas análises, tornando-se similares a índices tradicionais e pouco diferenciados. O segundo afeta aqueles que ativamente excluem empresas engajadas ou concentram investimentos em setores normalmente evitados por fundos sustentáveis — como tabaco, armamentos e outros setores controversos. Essa concentração reduz a diversificação da carteira, comprometendo a rentabilidade e a gestão de riscos.

Ao comentar essa contradição, um gestor de fundo anti-ESG ouvido pelo Wall Street Journal disse: “você tem que aceitar algum risco de desempenho para fazer o que estamos fazendo.” Isolada, a frase parece algo dito por um investidor de impacto ou ativista climático — alguém disposto a abrir mão de retornos financeiros em nome de um impacto socioambiental positivo. Mas, nesse caso, a motivação do anti-ESG é meramente ideológica.